‘Piratas do Caribe’ tenta corrigir rumos em sua nova aventura

Novo filme da franquia estreia nesta quinta sob nova direção e com Paul McCartney no elenco

LOS ANGELES – Quando foram convocados pelo produtor Jerry Bruckheimer para assumir o comando do navio desgovernado que havia se tornado a franquia “Piratas do Caribe”, os noruegueses Joachim Ronning e Espen Sandberg se agarraram a um par de lunetas a fim de alterar o curso das aventuras em alto-mar do Jack Sparrow de Johnny Depp. E olharam, de início, para trás. Pararam no filme original de 2003, mas também revisitaram pepitas de Steven Spielberg, George Lucas e Robert Zemeckis que os amigos de infância viram em sequência na virada dos anos 1980 para os 1990 na pequena Sandefjord, de orgulhosa tradição viking.

Mas “Piratas do Caribe: a vingança de Salazar”, que estreia nesta quinta, passa longe dos clássicos desses medalhões, de acordo com parte da crítica. Os ingleses “Guardian” e “Independent” e as americanas “Variety” e “Hollywood Reporter” escreveram que o filme está a milhas náuticas de distância até mesmo do primeiríssimo “A maldição do Pérola Negra”, de Gore Verbinski, responsável também pelas continuações “O baú da morte” (2006) e “No fim do mundo” (2007). Entre os pontos baixos, apontou-se a interpretação piloto automático de Depp. Entre os altos, o fato de este ser o filme mais curto dos cinco da franquia.

— Gostamos do primeiro filme, mas percebemos que ninguém jamais havia contado as origens do Jack Sparrow. Ninguém havia mostrado como Jack se tornara um pirata de renome, apesar de todas aquelas doses extras de rum — diz Ronning, seguido de bate-pronto por Sandberg: — Jack é um personagem sem arco no enredo de “Piratas”. Se você pensar bem, ele termina cada filme sem transformação alguma. Queríamos mudar isso.

Depois do fracasso retumbante de crítica e, em comparação com os tomos anteriores, também de público, do quarto filme da franquia, “Navegando em águas misteriosas” (2011), dirigido por Rob Marshall e com Penélope Cruz na pele da pirata Angelica, a dupla convidou o marido da diva espanhola, Javier Bardem, para viver o vilão central da nova aventura, o capitão Salazar.

— Ele é uma figura assustadora criada com ajuda de efeitos especiais e imagens capturadas por computador — conta Bardem. — Busquei a humanidade de um personagem morto-vivo na História espanhola, no código de honra dos navegadores e em sua ojeriza pela pirataria. Ele é movido por duas emoções: a vingança e muita raiva.

METÁFORA PARA O TERRORISMO

É justamente a partir da relação entre o orgulhoso — e fantasmagórico — navegante espanhol e um ainda mancebo Sparrow que os fãs mergulham nos primórdios do personagem inspirado em uma atração de parque de diversões da Disney e que se tornaria o maior sucesso de bilheteria de Depp, avesso a entrevistas desde o ano passado, quando iniciou seu conturbado divórcio da atriz Amber Heard, que o acusou de tê-la agredido fisicamente. Sem o protagonista da franquia, presente apenas nos eventos de gala do filme, coube a Javier Bardem e ao australiano Geoffrey Rush, de volta como o vilão Barbossa, defenderem a nova rota da franquia que embolsou cerca de US$ 3,7 bilhões em bilheteria mundo afora:

— O Salazar de Bardem é uma espécie de metáfora para o terrorismo contemporâneo. Está obcecado em destruir todos os piratas. E, em meio à caça a um tesouro fantástico, o Tridente de Poseidon, revelam-se histórias importantes tanto sobre o meu personagem quanto sobre dois velhos conhecidos nossos, Will Turner e Elizabeth Swann. Mas não me peça spoilers — desconversa Rush.

Ausentes do filme anterior, Orlando Bloom (Will) e Keira Knightley (Elizabeth) aparecem de raspão, mas acabam sendo peças importantes para o desenrolar de “A vingança de Salazar”. Uma cena pós-créditos dá a pista de que um eventual sexto filme girará em torno de duas histórias de amor. Duas porque Ronning e Sandberg investem o futuro da franquia na química do jovem australiano Brenton Thwaites (“Deuses do Egito”) com a britânica, filha de brasileira, Kaya Scodelario (“Maze runner”). Ele é Henry, o filho de Elizabeth e Will, decidido a quebrar a maldição que o separa do pai. Ela é Carina, astrônoma amadora e feminista cuja misteriosa paternidade é parte importante do quebra-cabeças imaginado pelos noruegueses.

— Orlando e Keira tinham outros projetos e não puderam participar do filme anterior. Desta vez voltamos ao set quase um ano depois de terminar as filmagens só para contar com os dois — diz Bruckheimer. — Escalei Joachim e Espen porque achei que era o momento de içar as velas, experimentar formatos, mas aproveitando elementos do que já se pode considerar uma “tradição pirata”.

Quem também faz participação especial é Paul McCartney, em papel originalmente reservado para Keith Richards. O beatle de 74 anos ponderou que sua porção ator já não tinha a mesma vitalidade de sua estreia em “Os reis do iê iê iê” (1964), mas se animou tanto que se ofereceu para dar uma palinha de “Maggie Mae”, vestido de pirata como se fosse para uma festa de Halloween.

— Keith estava em turnê com os Stones, e a ponta só funcionaria se fosse feita por um rock star — conta Sandberg — Começamos a pensar em uma lista, até que o Johnny nos disse: “Gente, eu posso ligar agora pro Paul, querem?”. Foi bem simples. Ele perguntou: “Paul, quer ser um pirata?”. Do outro lado ouvimos um animado “sim”.

Celebrados por “A aventura de Kon Tiki”, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013, justamente por oferecer olhar inovador sobre o cinema de aventura americano, os noruegueses também miraram o futuro. “A vingança de Salazar” foi filmado em 3D e traz efeitos especiais como assustadores tubarões-fantasma. É, também, a primeira produção de Hollywood apresentada no formato Screen X em 4D para plateias americanas, além de em outras 81 salas de cinema, na Ásia e Europa. O projetor de 270 graus dá aos espectadores a sensação de navegar com os piratas. Agora, os produtores esperam que ele diminua o risco de a tripulação abandonar a embarcação antes de a história terminar, especialmente após o ataque com munição pesada das primeiras críticas

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