‘O assassino é conhecido’, diz pai de criança encontrada morta em Alto de Coutos

criança encontrada morta em Alto de Coutos

Era nítido o esforço que o pedreiro João dos Santos Cortes, 47 anos, fazia para não chorar. A voz embargada e o olhar pedido refletiam, porém, o que palavras e lágrimas nem sempre traduzem: a imensurável dor de perder um filho. Mais uma criança encontrada morta em Alto de Coutos

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O sentimento de desolação é conhecido por João desde a manhã desta quinta-feira (17), quando soube que o corpo da filha de 10 anos, desaparecida desde a segunda-feira (14), havia sido encontrado por vizinhos a 100 metros da casa da família, em Alto de Coutos, no Subúrbio Ferroviário de Salvador.

Maria Elaine Sobral Cortes era a filha do meio do pedreiro, quem tem outras duas crianças, de 2 e 12 anos. A garota foi assassinada e jogada nos fundos de um prédio – em local de difícil acesso, com a blusa suspensa e o short na altura da virilha.

Na segunda-feira (14), Elaine estava sozinha em casa quando decidiu sair para comprar pipoca a poucos metros da sua residência, na Travessa 15 de Novembro, onde nasceu e foi criada.

criança encontrada morta em Alto de Coutos
Criança foi encontrada em terreno a 100 metros de casa (Foto: Reprodução)

Alguns indícios dão conta de que a menina não pretendia demorar: deixou a TV da sala ligada em um canal de desenho, a porta aberta, e sequer calçou os seus chinelinhos preferidos da Hello Kitty. Trancou apenas o cadeado do portão, por volta de 15h – horário estimado por parentes.

O plano de retorno foi tirado dela. Assim como o direito de crescer, estudar e ir à praia, o último programa que fez com a família. Alguém que conhecia a rotina dos Cortes é o responsável pela barbárie cometida à garota, acredita o pai. O pedreiro acha que a filhinha foi estuprada.

“Queria saber onde está o coração dessa pessoa, será que ele deita e dorme? É alguém aqui do bairro, é daqui da rua. É alguém muito próximo a mim. Eu acho que cometeram um estupro e deixaram ela lá, por ser alguém conhecido da nossa família”, disse o pai da vítima ao CORREIO.

Paulo ainda não teve forças para ir até o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR), onde o corpo aguarda para ser oficialmente reconhecido pela família. Até agora, Maria foi reconhecida apenas por “tio Paulo”, cunhado da mãe biológica, único que teve coragem de ver o cadáver da criança, por volta de 9h, logo que foi encontrado.

‘Tudo planejado’

Até aqui, o que se sabe sobre o crime foi construído pouco a pouco, com pequenas informações de vizinhos. A família recebeu de uma moradora a informação de que Elaine foi vista na mercearia da rua que, por causa do horário, não encontrou aberta.

A suspeita do pai de que ela havia saído para “comprar um doce” ganhou força a partir daí. Considerando os lugares onde Maria foi vista por vizinhos, contudo, fica ainda mais forte a possibilidade levantada pelo pedreiro João: quem levou Elaine, de fato, conhecia bem a família.

A extensão total da rua tem pouco mais de 200 metros, e alguns garantem ter visto a vítima no limite entre uma ponta e outra da travessa – que tem uma vista privilegiada do mar do Subúrbio.

Não há relatos de que, em algum momento, a garota estivesse acompanhada de um estranho. Tudo leva a família da jovem a crer, como afirma o pai, que o crime foi planejado.

“Não tem como não pensar isso. Ela saía de casa para a escola, da escola para a igreja, da igreja para casa. Ou até a casa de Paulo [amigo da família e ‘tio’ da menina], ficava lá, sempre entre a família. Quem pegou, sabia que era ficava sozinha”.

O geógrafo Paulo Luz, 49, o ‘tio Paulo’, que mora na mesma esquina em que a família do pedreiro João – e é casado com a irmã da mãe biológica da vítima, morta há dois anos -, contou à reportagem que quando soube que um corpo havia sido encontrado, correu até o local. Lembrou que, de longe, reconheceu a sobrinha só de olhar.

criança encontrada morta em Alto de Coutos
Pai acredita que criança foi estuprada por “alguém próximo” (Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

“É muito triste, porque desde o sumiço acreditamos que ela estava viva. Não consigo entender, ela certamente foi levada até ali, mas não dá pra entender se ela foi morta lá, é tudo muito estranho”, comentou, ao dizer que a menina era uma “criança esperta e tranquila”. 

A dificuldade de chegar a uma conclusão de como Elaine foi parar em um vão localizado nos fundos de uma casa, argumenta a família, se dá por dois motivos: o primeiro é o fato do local ser cercado de outras casas, onde moram vizinhos que ajudaram a procurar a criança pelos três dias em que ficou desaparecida.

De acordo com pai, por ser uma “criança forte”,  Maria pode ter sido carregada até lá por mais de uma pessoa, já desacordada, o que teria chamado a atenção de testemunhas. À reportagem, moradores disseram que não viram ou ouviram nada estranho no local.

O CORREIO esteve no lugar onde o corpo de Elaine foi encontrado na quinta-feira (17). Para chegar, a equipe contou com a ajuda da balconista Marta Rúbia Santos, 39, quem encontrou o cadáver da criança, e permitiu o acesso por sua casa.

O terreno, um pequeno espaço localizado na parte inferior de uma das casas, em uma ribanceira cercada de mato, é uma área comum aos fundos de todas as casas do lado direito da rua.

“Não entendo como trouxeram ela pra cá. Eu tinha tanta esperança, toda a comunidade, de encontrar ela viva. Foi horrível. Eu achei que era um rato morto, comecei a procurar, quando olhei direito, vi uma perna humana”, relatou Mara, acrescentando que o ‘”cheiro muito forte” começou a ser observado na terça-feira (15).

Nesta quinta, a balconista precisou queimar palha para espantar o odor. Logo que o corpo foi encontrado, os moradores entraram em contato com o Departamento de Polícia Técnica (DPT). Os peritos precisaram quebrar parte do vão em que estava a garota, já que o corpo inchou e já não pôde ser retirado pelo mesmo espaço em que foi colocado.

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), responsável pela investigação do caso, ainda não tem informações da autoria e motivação do crime. O pai da criança comentou com a reportagem que vai prestar depoimento na próxima segunda-feira (21).

criança encontrada morta em Alto de Coutos
Corpo foi achado embaixo de vão de uma casa na rua em que família mora(Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

Mais um funeral

Sentado sobre a escada de casa, cercado de vizinhos e amigos, João disse que a família vive mais um “episódio de horror”. Há cerca de dois anos ele enterrou a ex-mulher, Maria Quitéria Sobral, mãe de Maria Elaine e dos outros dois filhos.

Quitéria, que era dona de casa, morreu aos 45 anos, em decorrência de problemas cardíacos, além de diabetes e hipertensão. Desde então, o pedreiro criava as três crianças na casa de dois andares, parcialmente rebocada, no bairro de Coutos.

Além do sofrimento pela morte da esposa, João precisou lidar com o fato de que a filhinha recém nascida havia sido diagnosticada com uma espécie de cisto no cérebro.

Com a ajuda de famíliares, criava os filhos, trabalhava, e dava toda atenção às crias, garantiu o presidente da Associação dos Moradores 31 de Dezembro, vizinho e amigo da família, o encarregado Domingos da Silva Filho, 53.

“Desde que Maria morreu, ele se dedicou totalmente aos meninos. Sempre foi um pai amoroso, cuidadoso com todos. Ele é um homem bom, que sofreu muito nesses dias de busca pela menina. Elaine era muito bem cuidada, a gente fica se perguntando o porquê”, afirmou à reportagem, em prantos.

Emocionado, Domingos disse que não consegue entender como alguém que possivelmente conhecia a família da vítima “pôde cometer um crime tão cruel”.

O último dia

Ao CORREIO, João contou que a filha costumava ficar sozinha em casa sempre que a madrasta saía para acompanhar a irmãzinha de 2 anos até o Hospital do Subúrbio, onde está internada desde dezembro.

Já o filho de 12 anos, o pedreiro tinha o hábito de levar sempre com ele para o trabalho.

“Na segunda-feira, saímos de casa mais ou menos 6h. Deixei minha mulher no hospital e segui pro trabalho com meu filho. Sempre falava pra ela não abrir a porta pra ninguém. A chave, deixava à disposição dela, porque não podia trancar. O pesadelo começou quando chegamos, às 18h, e eu vi o cadeado fechado”, recordou.

Quando subiu, notou que a porta da casa, porém, estava aberta, a TV ligada e o chinelo de Elaine. Pensou, a princípio, que estivesse na casa de ‘tio Paulo’, mas não.

“Quando vi que ela não estava lá e em lugar nenhum, comecei a movimentar todo mundo. A comunidade inteira me ajudou, nos unimos e procuramos em tudo, mas não encontramos mais. Eu sempre acreditei que ela estivesse viva, até o último momento”, lamentou o pai da vítima, que disse que quer justiça.

Abalada, a madrasta da criança, a dona de casa Josenildes Brasilino, 37, falou que foi “bem recebida” por Elaine, com quem convivia há pelo menos sete meses, desde que foi morar com João.

“Graças a Deus, ela gostava de mim e eu dela. Onde eu ia, queria ir. Me chamava de mãe, e eu tratava como filha. Assim como eu trato os outros dois filhos dele. Eu passava mais tempo no hospital, com a menorzinha, por causa do problema na cabeça, mas eu e Elaine nos gostávamos muito”.

Mãe de um jovem de 20 anos, a madrasta da menina comentou que “sofre a dor do marido”.

“Não deve ter nada pior na vida. Ela era só uma menina, que nunca fez mal a ninguém, que tinha uma vida pela frente, era uma menina feliz”, descreveu.

De férias, Maria Elaine estava ansiosa para iniciar o ano letivo, onde cursaria o 5° ano do ensino fundamental. Em vários momentos, o pedreiro comentou, com orgulho, o fato da filha ter passado de ano.

Assim como a família, a criança era evangélica. Gostava de ir à praia, mas também se divertia em casa assistindo TV e ouvindo louvores evangélicos. No dia em que sumiu, segundo uma vizinha, passou parte da manhã cantando músicas religiosas.

Para o pai, a inocência de Elaine a atraiu para a morte. Após três dias e noites sem comer e dormir, João Cortes aposta que dias “ainda mais difíceis virão”.

O primeiro deles chegou: hoje, quando vai até o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR) reconhecer o corpo de sua menina, a quem pretende enterrar no Cemitério Municipal de Plataforma, em horário ainda não definido, para que “descanse perto da mãe”.

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